Gratidão – um olhar para a sabedoria

Vou
Uma vez mais
Correr atrás
De todo o meu tempo perdido
Quem sabe, está guardado
Num relógio escondido por quem
Nem avalia o tempo que tem […]*

*Chico Buarque e Sergio Godinho – Um tempo que passou. Lançamento 2001

Tempo é algo complexo de se falar; incrivelmente sempre temos a sensação de que ele nos falta, se esvai, nos rouba momentos. Quem não gostaria de ter mais tempo?

Quando relacionamos esse assunto à velhice, esse então toma proporções imensas e sempre fica a sensação de algo por fazer. Quem nunca disse frases como: “Se eu tivesse mais tempo, faria…” ou “Eu devia ter feito, mas agora o tempo já passou…”

De modo geral todos acabam perseverando tanto no que se foi, que têm dificuldade em viver o agora, e não conseguem criar perspectivas para um futuro.

O Centro-dia do Idoso, como já abordado em outros textos, é uma instituição que visa acolher e cuidar do idoso no período em que o familiar/cuidador não pode fazê-lo; conta com equipe multidisciplinar especializada no tratamento desse público e dentre seus objetivos o serviço propõe a promover autonomia, inclusão social e melhoria da qualidade de vida de seus participantes.

Nesse mês no Centro-dia optamos por trabalhar o tema Gratidão. Esse assunto nos atendimentos em grupo de Musicoterapia foram trabalhados em consonância ao tema temporalidade.

Surgiram nos encontros com os idosos algumas das frases que citei acima (eu queria/deveria ter feito… se tivesse mais tempo). Na realidade todos querem ter mais tempo, no entanto se lamentar pelo que passou, pelo não dito, pelo não feito, não proporciona ganho algum; pelo contrário, somente reafirma essa sensação negativa que se retroalimenta através de pensamentos ruins.

Em decorrência dessa demanda fizemos algumas análises de letras de canções que traziam como temática assuntos relacionados a escolhas, e optamos por fazer uma relação dos acontecimentos bons que aconteceram nas vidas de cada um.

Fazer essa relação, pensar nesses acontecimentos, possibilitaram um novo olhar para a realidade. Os ajudou a perceber que apesar de não estarem plenamente satisfeitos com a atual situação, a construção de uma vida regada a bons acontecimentos, a construção de coisas boas como família, amigos, emprego, contatos, facilitam uma vivência mais leve, com menos culpa ou remorso por não se ter feito isso ou aquilo.

Discutimos sobre a possibilidade de se fazer escolhas e colocamos em evidência que nossas escolhas nos tornaram o que somos. Falamos sobre possibilidades de escolha e sobre aceitar ou não o que a vida nos impõe.

Quando se toma isso como perspectiva se percebe que cada um é dono de sua própria história e que as ações tomadas, as escolhas realizadas em detrimento de outras, vem em boa parte para nos trazer novas possibilidades e configurações de vida.

Agradecer por essa liberdade nos torna fortes diante das dificuldades e maduros para resolver os empecilhos que em alguns momentos a vida proporciona.

Maturidade é poder olhar para trás entendendo a sua importância para a construção de um presente saudável, sabendo colher as riquezas que a vida nos dá, possibilitando a projeção de um futuro farto e rico de coisas boas, e AGRADECENDO sempre a possibilidade de escolhas, de novas configurações e de novos recomeços.

 

Rafael Ludovico Moreira, Mestrando em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) – 2014 e Bacharel em Musicoterapia pela FMU –  2013. Atua como musicoterapeuta na prevenção, tratamento e reabilitação de diversas doenças; experiência com musicoterapia organizacional voltada para auto-conhecimento e resolução de conflitos; experiência com musicoterapia em geriatria com ênfase em reabilitação e tratamento de demências; assessoria em musicoterapia.